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Celebrado em 4 de novembro, o Dia das Favelas é uma oportunidade para reconhecer muito além da história de resistência e da riqueza cultural das comunidades: é também o momento de destacar a força econômica de milhões de brasileiros que trabalham, empreendem, consomem e movimentam negócios dentro desses territórios.
As favelas não são apenas espaços de moradia. São centros de atividade econômica, com comércios, prestadores de serviços, iniciativas culturais, negócios familiares e empreendedores que criam oportunidades e geram renda. Para dimensionar essa realidade, é importante olhar para os números do consumo e do empreendedorismo nas comunidades.
Um mercado de R$ 167 bilhões por ano
Um dos dados mais expressivos divulgados neste 4 de novembro de 2026 foi apresentado pela TV Brasil: as favelas e os territórios periféricos brasileiros representam um potencial de consumo estimado em R$ 167 bilhões por ano. O levantamento também destaca a expansão do empreendedorismo e a presença feminina nos negócios locais.
O número reforça a dimensão de um mercado que, por muito tempo, recebeu pouca atenção de empresas e investidores. São milhões de consumidores que compram alimentos, roupas, eletrodomésticos, serviços, produtos de beleza, tecnologia e uma ampla variedade de itens, movimentando desde pequenos comércios de bairro até empresas de maior porte.
Há também outras estimativas que ajudam a dimensionar essa economia. Em setembro de 2024, uma publicação do governo federal, com dados atribuídos ao Instituto Data Favela, apontou que as favelas movimentavam aproximadamente R$ 202 bilhões por ano. Já um relatório do Sebrae Santa Catarina, também baseado em pesquisa do Data Favela, mencionou mais de R$ 119 bilhões em consumo anual.
Esses valores não devem ser somados nem tratados como se fossem a mesma medição: são estimativas divulgadas em levantamentos diferentes, com possíveis diferenças de período, universo e metodologia. Ainda assim, todos apontam para uma realidade: a economia das favelas tem escala bilionária e relevância nacional.
Mais de 16 milhões de brasileiros vivem nesses territórios
De acordo com o Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas por 656 municípios. Nesses locais viviam 16.390.815 pessoas, o equivalente a 8,1% da população brasileira.
O levantamento também identificou aproximadamente 958 mil estabelecimentos nesses territórios. Desse total, 64,3% eram estabelecimentos de diversas finalidades, incluindo oficinas mecânicas, farmácias, bancos, escritórios e lojas.
Os números mostram que as comunidades possuem uma estrutura econômica muito mais ampla do que a imagem frequentemente associada a esses territórios. São mercadinhos, salões de beleza, oficinas, restaurantes, lojas de roupas, pequenos mercados, bares, serviços de entrega, profissionais autônomos e negócios digitais que atendem à população local e, em muitos casos, conquistam clientes de outras regiões.
Mulheres lideram o empreendedorismo
Outro destaque está na participação feminina. Segundo os dados apresentados pela TV Brasil neste 4 de novembro, as mulheres lideram mais de 60% dos negócios analisados nas favelas.
O levantamento considerou mais de 260 mil estabelecimentos e identificou uma concentração de atividades no comércio e na prestação de serviços: 43% dos negócios estão ligados ao comércio e 38% aos serviços. Entre os empreendedores formalizados com CNPJ, 76% são microempreendedores individuais (MEIs) e 23% são micro ou pequenos empresários.
Esse cenário revela o protagonismo de mulheres que transformam habilidades, conhecimentos e necessidades do cotidiano em oportunidades de geração de renda. Muitas começam trabalhando em casa, atendendo vizinhos e conhecidos, e gradualmente ampliam suas atividades, contratam funcionários e conquistam novos mercados.
Oportunidades para empresas e marcas
O potencial econômico das favelas também representa uma oportunidade para empresas que desejam ampliar sua presença no mercado brasileiro. O consumidor desses territórios participa ativamente da economia, utiliza meios de pagamento digitais, realiza compras pela internet e acompanha tendências de consumo.
A conectividade e a ampliação dos meios de pagamento contribuíram para reduzir algumas barreiras comerciais. O Pix, os bancos digitais, as redes sociais e as soluções de entrega facilitaram o acesso a produtos e serviços, além de criarem novos caminhos para os empreendedores divulgarem e comercializarem seus negócios.
Entretanto, transformar esse potencial em desenvolvimento exige mais do que campanhas publicitárias. É necessário ampliar o acesso ao crédito, oferecer capacitação, investir em infraestrutura, estimular a formalização e criar oportunidades para que os empreendimentos locais possam crescer.
Um levantamento citado pelo governo federal em 2024 apontou que aproximadamente 45% dos empreendedores das favelas enfrentavam dificuldades para conseguir crédito, um dos obstáculos para expandir suas atividades.
A origem do Dia das Favelas
A escolha do dia 4 de novembro está relacionada à história do próprio termo “favela”. Nessa data, em 1900, um documento policial do Rio de Janeiro fez uma das primeiras referências oficiais à palavra, ao mencionar o Morro da Providência, território historicamente considerado a primeira favela brasileira.
A denominação tem relação com a planta faveleira, encontrada na região de Canudos, na Bahia. A história conta que soldados que participaram da Guerra de Canudos levaram essa referência para o Rio de Janeiro, onde passaram a ocupar o Morro da Providência.
A data ganhou força a partir de uma mobilização da Central Única das Favelas (CUFA), que buscou transformar a percepção sobre esses territórios e valorizar seus moradores. O Dia da Favela foi oficializado no calendário municipal do Rio de Janeiro em 2006 e também integra o calendário de eventos da cidade de São Paulo.
Muito além dos números
Celebrar o Dia das Favelas significa reconhecer a contribuição de milhões de brasileiros para a construção do país. É valorizar trabalhadores, comerciantes, artistas, profissionais liberais, estudantes, lideranças comunitárias e empreendedores que fazem desses territórios espaços de produção, criatividade e desenvolvimento.
A força econômica das comunidades convive, entretanto, com problemas históricos de infraestrutura, saneamento, moradia, mobilidade, educação, saúde e segurança. Por isso, reconhecer o potencial de consumo e geração de renda também significa discutir a necessidade de investimentos e políticas públicas capazes de melhorar a qualidade de vida de quem mora nesses locais.
Os números ajudam a mostrar a dimensão dessa realidade: são mais de 16 milhões de pessoas, milhares de territórios e uma economia que movimenta bilhões de reais todos os anos.
Neste 4 de novembro, o Dia das Favelas é uma oportunidade para olhar para esses espaços não apenas pelas dificuldades que enfrentam, mas também pelo que produzem, constroem e representam para o Brasil. A favela é território de trabalho, cultura, empreendedorismo e oportunidades. É parte da economia brasileira e tem papel fundamental no desenvolvimento do país.
Observação editorial: os R$ 167 bilhões correspondem ao potencial de consumo divulgado pela TV Brasil em 2026. Os R$ 202 bilhões são uma estimativa de movimentação anual atribuída ao Data Favela e divulgada pelo governo federal em 2024. São indicadores de levantamentos distintos, não valores que devam ser somados.
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